Em junho de 2000 a direção do tristemente famoso presídio do Carandirú, o maior do país, realizou cem cerimônias de casamento. Cem noivas, rumaram para a instituição onde seus futuros maridos estavam confinados. Lá, emocionadas, se maquiaram e se vestiram com o apuro e a majestade que seus pobres vestidos brancos permitiram, emocionadas receberam uma benção coletiva, trocaram alianças, beijaram apaixonadas com os olhos bem fechados seus amados, e depois, alegres e sempre emocionadas, comeram bolo, tiraram fotografias e receberam cumprimentos. Por fim, despediram-se de seus maridos, trocaram de roupa e saíram sozinhas do imenso e inóspito conjunto de pavilhões onde vivem e viverão seus homens, em direção ao ponto de ônibus, onde, várias delas com buquês nas mãos, esperaram pacientes com o vento frio de junho a estapeá-las nos rostos, os ônibus que as levariam de volta à solidão. A cada semana elas voltarão ao encontro de um amor que se distribui as migalhas. Um encontro ansiosamente aguardado e que eles, com a docilidade incomum de homens cujos movimentos foram abruptamente amputados, retribuirão com amor e fidelidade inexcedíveis.
Agnaldo Farias