{"id":3311,"date":"2013-02-11T03:37:40","date_gmt":"2013-02-11T03:37:40","guid":{"rendered":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=3311"},"modified":"2013-02-13T15:44:14","modified_gmt":"2013-02-13T15:44:14","slug":"despontando","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/textostexts\/critica\/despontando\/","title":{"rendered":"Despontando"},"content":{"rendered":"<p>Em 1996 Beth Moys\u00e9s forrou o teto da Capela do Morumbi com vinte e cinco vestidos de casamento unidos entre si. Era como se cada um subisse por sozinho como um bal\u00e3o inflado por seus pr\u00f3prios sonhos. Vestidos n\u00e3o voam e mesmo que voassem o teto os impediria; e mesmo que o telhado n\u00e3o o fizesse, Beth os havia l\u00e1 fixado. Mas os pensamentos v\u00e3o longe e por vezes o artista lhes d\u00e1 roupagens para os tornarem vis\u00edveis, como j\u00e1 disse o pintor&#8230;<br \/>\nVestidos de noiva n\u00e3o s\u00e3o feitos s\u00f3 com tecido, agulha, alfinete, linha, bot\u00e3o, brilho e bordado. Tamb\u00e9m molde e at\u00e9 reforma ou at\u00e9 remendo. Provoca expectativa, \u00e0s vezes decep\u00e7\u00e3o, mas noiva feia ser\u00e1 que h\u00e1? Alguns (poucos) pensam que sim, mas a maioria acha que n\u00e3o. Ao eleger os trajes, Beth tamb\u00e9m incluiu o que representavam quem<br \/>\nos usou. N\u00e3o s\u00f3 se referia \u00e0s vinte e cinco em quest\u00e3o, mas a umas quantas gera\u00e7\u00f5es antes delas e outras tantas depois. E l\u00e1 os vestidos ficaram, como vinte e cinco noivas irmanadas como siamesas, juntas por costura e s\u00edmbolo, linha e prego. Silenciosos l\u00e1 ficaram por quase um m\u00eas, cada parte presa \u00e0 outra como a artista havia designado,<br \/>\nrespondendo a sua pr\u00f3pria natureza e completando a obra. A mat\u00e9ria tendia ao ch\u00e3o, para voltar ao p\u00f3; o sonho buscava altura, para evadir-se. Como ex-votos de amores &#8211; esperados, achados e perdidos &#8211; os vestidos l\u00e1 ficaram, ainda presos<br \/>\npara se conservarem no alto, apesar de pela gravidade se aproximarem da realidade do ch\u00e3o.<br \/>\nEm exposi\u00e7\u00e3o realizada dois anos mais tarde Beth levou realmente as noivas para o ch\u00e3o, deixando de modo claro e coerente sua inten\u00e7\u00e3o de discutir com seu trabalho quest\u00f5es relacionadas \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher. Seu foco<br \/>\nj\u00e1 estava dirigido \u00e0 viol\u00eancia ocorrida dentro de casa, com chantagem e sem testemunhas. Desde ent\u00e3o faz parte da obra de Beth n\u00e3o s\u00f3 o vestido, o registro, o objeto, a fotografia, o v\u00eddeo, mas a reflex\u00e3o sobre o aspecto dessa viol\u00eancia, o dia a dia dessas mulheres, suas faces e seus percursos.<br \/>\nNa mostra de 1998, o tecido branco, desmontado, apenas aludindo \u00e0 sua antiga forma e principalmente seu significado n\u00e3o passava desapercebido. O fato de estarem dispostos sobre o assoalho, obstruindo a passagem do p\u00fablico e de<br \/>\ncorrerem o risco de serem pisados provocava associa\u00e7\u00f5es imediatas e n\u00e3o raro mal estar com sua equival\u00eancia ao ato de pisar a pr\u00f3pria noiva e por extens\u00e3o, todas as mulheres.<br \/>\nPor\u00e9m a partir de 2000 essas mesmas noivas, antes manietadas e silenciosas deram seu primeiro passo e come\u00e7aram a caminhar. Em grupo dev\u00e1rias dezenas delas cruzaram a Avenida Paulista interromperam o tr\u00e2nsito e causaram estranhamento. Transeuntes olharam curiosos para aquelas noivas que usavam sapatos de borracha por debaixo das saias arrastando no asfalto, tinham rel\u00f3gio de pulso, olhavam firme para frente e andavam com passo t\u00e3o decidido<br \/>\nque v\u00e1rias grinaldas escorregavam das cabe\u00e7as. Os vestidos que usavam eram reais e foram usados por noivas verdadeiras, alguns dos quais foram doados por amigas e conhecidas de Beth, outros foram comprados em lojas de roupas usadas. Todos os trajes j\u00e1 haviam cumprido sua fun\u00e7\u00e3o ritual original e agora desempenhavam a de iniciar uma nova vida \u2013 assim como aquelas mulheres. Chamavam a aten\u00e7\u00e3o por caminharem juntas, mas cada uma sabia para onde queria ir.<br \/>\nEm 2002 o apoio dado pelas feministas espanholas para repetir o desfile das noivas em Madri, transformou a obra de arte sens\u00edvel \u00e0s quest\u00f5es de seu tempo em um ato de manifesta\u00e7\u00e3o social. An\u00fancios divulgados em esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dios e publicados em jornais reuniram duzentas mulheres transformadas em noivas, de adolescentes a septuagen\u00e1rias, para expressarem seu rep\u00fadio \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica.<br \/>\nA primeira vez em que Beth n\u00e3o participou efetivamente do manifesto e acompanhou as noivas apenas para fotografar passo a passo o evento foi durante a performance realizada em Bras\u00edlia em novembro de 2003. A vers\u00e3o brasiliense<br \/>\nassumiu caracter\u00edsticas diversas das anteriores, n\u00e3o apenas no que se refere ao compromisso e atitudes de suas participantes com o assunto, como \u00e0 seq\u00fc\u00eancia estabelecida pela artista. O grupo era composto por cento e vinte v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica, sendo que trinta das quais naquele momento habitavam uma casa abrigo. Como noivas e com buqu\u00eas de rosas brancas nas m\u00e3os, sa\u00edram da Galeria Ecco e caminharam por dois quil\u00f4metros de avenidas at\u00e9 a catedral.<br \/>\nEm atitude solene uma a uma se aproximaram de buracos previamente cavados no gramado e dispostos em forma de mandala. Silenciosamente ali enterraram os espinhos, talos e folhas de seus buqu\u00eas, cobrindo-os com as p\u00e9talas para retornarem aos lugares de onde haviam sa\u00eddo do c\u00edrculo ritual.<br \/>\nA atual mostra que Beth Moys\u00e9s apresenta na Galeria Thomas Cohn traz a viol\u00eancia n\u00e3o como resultado final de uma s\u00e9rie de atos, etapa final de situa\u00e7\u00e3o irremedi\u00e1vel ou fado inexor\u00e1vel. Em sua abordagem atual a artista a coloca em<br \/>\ntermos de lembran\u00e7a presente, mas como parte dos sentimentos que n\u00e3o devem ser nem alimentados, refor\u00e7ados, trancados ou ainda esquecidos. Prop\u00f5e que tais sentimentos sejam conhecidos, compreendidos e transmutados.<br \/>\nA exposi\u00e7\u00e3o apresenta tr\u00eas etapas desse momento do trabalho da artista.<br \/>\nA primeira delas, tem como tema a morte enquanto encerramento de um ciclo. Mem\u00f3ria do Afeto \u2013 Bras\u00edlia re\u00fane um conjunto de amplia\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas das noivas durante o trajeto at\u00e9 a catedral e durante seu processo. O per\u00edodo de luto e recolhimento diante da dor sentida est\u00e1 no v\u00eddeo Despontando n\u00f3s, sucess\u00e3o de m\u00e3os femininas, velhas ou mo\u00e7as, bem cuidadas ou sofridas, que seguram a haste de uma rosa. Uma ap\u00f3s a outra seguram a planta, escolhem um espinho, o quebram com um estalido e com o sil\u00eancio rompido exorcizam o equivalente cravado em seus cora\u00e7\u00f5es, curando feridas. N\u00f3s mesmas nos unindo, desatando nossos liames, arrancando lan\u00e7as cravadas em cora\u00e7\u00f5es e ressurgindo para o mundo.<br \/>\nA segunda etapa tem a realidade de um per\u00edodo de lat\u00eancia, onde o sil\u00eancio \u00e9 fundamental como elemento para gerador de densidade. \u00c9 constitu\u00eddo por Almas Prematuras, onde duzentos cora\u00e7\u00f5es semelhantes aos dos beb\u00eas prematuros, modelados a m\u00e3o em argila branca, lotam uma incubadora. Cita os cora\u00e7\u00f5es vindos ao mundo antes de totalmente prontos para a vida, mas fortes e capazes de resistir. Estabelece o paradoxo com as almas que uma vez existentes sempre s\u00e3o absolutas, por\u00e9m que nunca nos sentimos experientes o bastante para a eternidade.<br \/>\nA terceira parte da mostra relaciona-se \u00e0 Imperatriz. Carta de baralho feita em tecido. Arqu\u00e9tipo da m\u00e3e bordado pela m\u00e3e, que com linha desenhou ponto a ponto o nascimento em ouro sobre um metro e setenta de tecido muito fino. Dizem as cartas que seu ideal \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o, que seu poder principal \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o da vida e de formas infinitas. Ama a todos igualmente, recebe os cora\u00e7\u00f5es e os torna generosos. Seu poder n\u00e3o \u00e9 tirano, mas am\u00e1vel. Seu peito abriga o ditador, lhe inverte o reinado e nesse acolhimento o transforma, possibilitando o in\u00edcio de um novo tempo.<br \/>\nA Imperatriz marca esse terceiro momento. Foi a \u00faltima obra a chegar \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 a primeira que l\u00e1 encontramos. Pois dizem as cartas que \u00e9 por ela que se tem o primeiro vislumbre do amor, o mesmo amor que acalenta as almas prematuras e cicatriza as mem\u00f3rias do afeto.<\/p>\n<p><strong>Maria Izabel Branco Ribeiro<\/strong><br \/>\nSetembro 2003<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=146\"><strong>&lt;&lt; VOLTAR\/BACK<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1996 Beth Moys\u00e9s forrou o teto da Capela do Morumbi com vinte e cinco vestidos de casamento unidos entre si. Era como se cada um subisse por sozinho como um bal\u00e3o inflado por seus pr\u00f3prios sonhos. 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