{"id":3327,"date":"2013-02-11T04:32:17","date_gmt":"2013-02-11T04:32:17","guid":{"rendered":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=3327"},"modified":"2013-02-11T13:49:55","modified_gmt":"2013-02-11T13:49:55","slug":"o-fio-de-ariadne","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/textostexts\/critica\/o-fio-de-ariadne\/","title":{"rendered":"O Fio de Ariadne"},"content":{"rendered":"<p>[two_col][\/two_col][two_col_last]\u00bb<em>\u00a0Um rastro de sangue na neve de Madri a Paris. Voc\u00ea n\u00e3o acha bonito para uma can\u00e7\u00e3o? N\u00e3o teve tempo de tornar a pensar. Nos sub\u00farbios de Paris, o dedo era um manancial incontrol\u00e1vel,\u00a0e ela sentiu de verdade que a alma estava\u00a0indo embora\u00a0pela ferida.\u00bb<\/em>[\/two_col_last]<br \/>\nA obra de Beth Moys\u00e9s \u00e9 ao mesmo tempo m\u00faltipla e \u00fanica, autoral e coletiva. A artista, uma das raras brasileiras a enfrentar o tabu de lidar plasticamente com um drama de car\u00e1ter social, vem desde a d\u00e9cada de noventa realizando in\u00fameras incurs\u00f5es no campo da simbologia feminina, mais precisamente da quest\u00e3o da viol\u00eancia de g\u00eanero, dando forma po\u00e9tica ao inconformismo diante da terr\u00edvel e t\u00e3o comum situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia dom\u00e9stica.<br \/>\nNum primeiro momento, passou a explorar o potencial visual e sem\u00e2ntico de elementos como o vestido de noiva, o v\u00e9u, as rosas, a p\u00e9rola, a agulha ou a linha, que funcionam como met\u00e1foras da mitifica\u00e7\u00e3o do amor rom\u00e2ntico \u2013 segundo a artista uma das causas centrais da viol\u00eancia, f\u00edsica e psicol\u00f3gica, contra a mulher. Em seguida deu um passo al\u00e9m e passou a trabalhar com essa terr\u00edvel mem\u00f3ria comum de sofrimento, gerando, por meio de performances p\u00fablicas, uma esp\u00e9cie de purga\u00e7\u00e3o da dor. H\u00e1 nessa produ\u00e7\u00e3o uma forte conota\u00e7\u00e3o auto-biogr\u00e1fica. O clima de viol\u00eancia entre os pais, vivenciado pela artista desde a inf\u00e2ncia, serviu como importante detonador desse processo investigativo.<br \/>\nAs linguagens, formas e materiais explorados por Beth s\u00e3o bastante diversificados. E no entanto h\u00e1 como que um fio invis\u00edvel que conduz de um trabalho a outro, que conecta \u2013 como fez Ariadne \u2013 o enfoque particular da domina\u00e7\u00e3o a um contingente mais amplo, e por isso menos controlado, no qual se explicita e tenta reverter o perverso processo de desumaniza\u00e7\u00e3o da mulher por parte daqueles que a consideram sua posse. Tendemos a dividir sua obra em dois grandes n\u00facleos, um de car\u00e1ter coletivo e cat\u00e1rtico e outro mais expressivo e intimista. No primeiro deles situam-se as diversas performances organizadas pela artista em diversas partes do mundo \u2013 come\u00e7ando por uma a\u00e7\u00e3o de 150 mulheres, quase todas, v\u00edtimas de viol\u00eancia, trajadas de noivas pela Av. Paulista, centro nervoso de S\u00e3o Paulo \u2013 bem como seus registros em v\u00eddeo. \u00c9 surpreendentemente amplo o espraiamento geogr\u00e1fico de suas a\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 ganhou vers\u00f5es em diversos pa\u00edses, sobretudo na Espanha, pa\u00eds no qual n\u00e3o se verifica o mesmo pudor em tratar de temas dram\u00e1ticos que encontramos na arte brasileira.<br \/>\nPara organizar essas interven\u00e7\u00f5es ao redor do mundo, Beth Moys\u00e9s conta com o apoio de diversas institui\u00e7\u00f5es e centenas de mulheres em diferentes pa\u00edses, criando uma rede ampla de rela\u00e7\u00f5es e de v\u00ednculos, que permitem a elabora\u00e7\u00e3o dos dramas pessoais por meio do agir coletivo. Destaca-se o car\u00e1ter ao mesmo tempo seco e teatral dessas a\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o ao mesmo tempo express\u00e3o art\u00edstica e elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do trauma. H\u00e1, no entanto, um outro grupo de trabalhos desenvolvidos por Beth Moys\u00e9s que pertencem a um contexto intimista, mais controlado e aut\u00f4nomo. Em cria\u00e7\u00f5es como o recente \u201cTrans-bordando\u201d, o efeito depurador da performance d\u00e1 lugar \u00e0 rigorosa e \u00edntima composi\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o do ateli\u00ea.<br \/>\nAli est\u00e3o presentes, com uma rara sutileza e um maior refinamento est\u00e9tico, aspectos centrais de sua po\u00e9tica. O v\u00eddeo tamb\u00e9m lida, por\u00e9m de forma menos expl\u00edcita, com o car\u00e1ter coletivo da quest\u00e3o da mulher \u2013 equivocadamente tratada como um problema individual quando na verdade trata-se de uma grave doen\u00e7a social, ainda mais num pa\u00eds como o Brasil, que ocupa uma triste posi\u00e7\u00e3o no ranking de pa\u00edses onde ocorrem maior incid\u00eancia de viol\u00eancia dom\u00e9stica de homens contra mulheres, sendo superado apenas por na\u00e7\u00f5es africanas. Mas promove ademais uma reflex\u00e3o sobre a pot\u00eancia sem\u00e2ntica de objetos (o dedal), atributos (o fluxo, lacrimal ou menstrual) e cores (vermelho e branco) tipicamente femininos. Agrupados num desenho sinuoso, que remete \u00e0 ideia de mapa, os dedais prateados s\u00e3o a\u00e7odados pela chuva, cuja origem \u00e9 desconhecida e que rapidamente torna-se torrencial. Esses recipientes, de uma rara beleza prateada e que cont\u00e9m gotas de sangue, s\u00e3o tomados por um l\u00edquido rubro, que se dilui na \u00e1gua, e oscilam de forma insegura. Tentam manter-se firmes, mas a virul\u00eancia da \u00e1gua, a for\u00e7a do vermelho, a intensidade do movimento vertical os afoga.<br \/>\nA cena remete ao conto \u201cMeu Sangue sobre a neve\u201d, no qual Gabriel Garc\u00eda Marquez narra a hist\u00f3ria de uma jovem que se esvai em sangue ap\u00f3s perfurar o dedo em uma rosa, com a qual \u00e9 presenteada por causa de seu casamento. O dedo \u00e9 perfurado pelo espinho (outra das figuras-s\u00edmbolo exploradas por Beth Moys\u00e9s em trabalhos como \u201cDespontando N\u00f3s\u201d), mas o ferimento, mesmo que aparentemente superficial, revela-se mais profundo e incur\u00e1vel. Traduz a impossibilidade da troca, desnudando tanto a artificialidade do sonho pequeno burgu\u00eas do casamento, como a impot\u00eancia do homem diante da maturidade e da vida amorosa diante dos padr\u00f5es impostos por uma sociedade pautada pelo individualismo e por la\u00e7os sociais perversamente estabelecidos.<\/p>\n<p><strong>Maria Hirszman.<\/strong><br \/>\nJornalista e Cr\u00edtica de Artes.<br \/>\nMestre em hist\u00f3ria da arte pela ECA-USP.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=146\"><strong>&lt;&lt; VOLTAR\/BACK<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[two_col][\/two_col][two_col_last]\u00bb\u00a0Um rastro de sangue na neve de Madri a Paris. 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