{"id":3700,"date":"2013-02-13T14:49:32","date_gmt":"2013-02-13T14:49:32","guid":{"rendered":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=3700"},"modified":"2013-02-13T14:54:36","modified_gmt":"2013-02-13T14:54:36","slug":"amor","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/textostexts\/critica\/amor\/","title":{"rendered":"Amor"},"content":{"rendered":"<p>Sempre me impressionou a fragilidade do rei no jogo de xadrez. Seus movimentos mi\u00fados, sua lenta evolu\u00e7\u00e3o pela ret\u00edcula do tabuleiro, in\u00e9rcia cultivada pela cerca de prote\u00e7\u00e3o montada por seu s\u00e9quito. Sua presen\u00e7a, no entanto, \u00e9 que justifica a exist\u00eancia de todo seu peculiar ex\u00e9rcito composto por pe\u00e7as que se distribuem aos pares, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o dos pe\u00f5es que se acotovelam em n\u00famero de 8, que avan\u00e7am resolutos para diante e para os lados, oferecendo-se como moeda de troca no ataque e na defesa, e da rainha, cuja presen\u00e7a tal como a do rei, seu par, \u00e9 igualmente solit\u00e1ria, mas que ao contr\u00e1rio de sua quase impossibilidade, desloca-se vertiginosamente, compondo \u00e2ngulos de noventa graus com linhas diagonais. Neste casamento, o vigor e a desenvoltura est\u00e3o na rainha mas \u00e9 o rei quem consagra sua exist\u00eancia, a exist\u00eancia de todos, do pr\u00f3prio jogo que acontece a partir dos dois oponentes que se debru\u00e7am sobre uma mesa, frente ao tabuleiro, cada um comandando seu ex\u00e9rcito por detr\u00e1s, um branco, outro preto, com um deles a realizar o primeiro lance (o indefect\u00edvel Pe\u00e3o Quatro da Dama, P4D, embora sejam previstas algumas outras varia\u00e7\u00f5es), ataque que ter\u00e1 como correspondente natural uma defesa igualmente \u00f3bvia, posto que no in\u00edcio os movimentos s\u00e3o previs\u00edveis, demarcados, at\u00e9 que o fr\u00e1gil equil\u00edbrio mantido por for\u00e7as divergentes que se interpenetram, o tecido invis\u00edvel enredado pelos fios dos movimentos executados, se esgar\u00e7a: momento em que o conhecimento de um antagonista pelo outro produz a vis\u00e3o antecipada do que ir\u00e1 ocorrer, e os caminhos a serem percorridos pelas pe\u00e7as na imagina\u00e7\u00e3o de um j\u00e1 s\u00e3o, sem que ele saiba, ainda que seja frequente a suspeita, conhecidos do outro, de seu parceiro\/oponente &#8211; parceiro porque n\u00e3o se joga sozinho; oponente porque no jogo mede-se for\u00e7as e engendra-se uma vit\u00f3ria e uma derrota -, e \u00e9 a\u00ed que seus lances se transformam em sendas incertas que levar\u00e3o seu rei ao fim.<\/p>\n<p>Jogos encarnam e prefiguram as rela\u00e7\u00f5es humanas, n\u00e3o fossem elas mesmas jogos. Ser\u00e1 preciso insistir nessa tecla? Beth Moys\u00e9s diz-nos que sim, e sua trajet\u00f3ria art\u00edstica vem se desenhando como o invent\u00e1rio e a an\u00e1lise de um jogo em particular, matriz de todos os jogos: a rela\u00e7\u00e3o entre homem e mulher.<\/p>\n<p>Em suas pinturas\/objetos anteriores, a artista constru\u00eda met\u00e1foras a partir do vestido de noiva, esse fetiche imemorial calcado na id\u00e9ia de pureza, alvo de tanto investimento afetivo, de fantasias e idealiza\u00e7\u00f5es. Mantendo seu foco nas rela\u00e7\u00f5es amorosas, do espectro que as ronda em m\u00e1goas e traumas, de seus mitos e ritos conexos, a artista foi se aprofundando em discuss\u00f5es mais e mais obl\u00edquas, do que essa presente exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 exemplar.<\/p>\n<p>Antes mesmo de avan\u00e7ar na rela\u00e7\u00e3o entre rei e rainha, protagonistas da instala\u00e7\u00e3o maior apresentada pela artista, comecemos pelo curioso recurso em fazer uso do jogo de xadrez e mont\u00e1-lo em escala real na sala da galeria. Porfia de cifra mental, o xadrez imp\u00f5e a luta silenciosa entre duas pessoas, cada qual armada de pe\u00e7as a serem movimentadas segundo estrat\u00e9gias cujo c\u00e1lculo objetiva sen\u00e3o vencer ao menos evitar a qualquer custo a capitula\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, \u00e0 paralisia do empate. Dentro desse restrito territ\u00f3rio quadrangular, dividido em 64 partes iguais, onde cada personagem tem seu movimento rigidamente estabelecido, o rei \u00e9, entre todos, o mais confinado. De certo n\u00e3o foi assim que nos acostumamos a ver o rei; n\u00e3o, historicamente n\u00e3o foi essa imobilidade o predicado definidor da figura masculina. Ao her\u00f3i, mesmo o mon\u00f3tono S\u00edsifo, cabia o p\u00e9riplo cont\u00ednuo, como Ulisses, como H\u00e9rcules, como Lancelot. Dos homens, os deslocamentos lineares sobre o territ\u00f3rio para a ca\u00e7a e a conquista; das mulheres a circularidade dos movimentos dom\u00e9sticos, a espera, o bordado sobre o colo.<\/p>\n<p>A rainha imaculadamente branca de Beth Moys\u00e9s est\u00e1 sozinha sobre o tabuleiro igualmente branco. Essa supress\u00e3o das pe\u00e7as e planos pretos sinaliza a exist\u00eancia de um outro jogo dentro do jogo. O corpo c\u00e2ndido da rainha traz um grande \u00f4co; um vazio cuja forma corresponde a uma vers\u00e3o reduzida da silhueta do rei. O rei atravessa-a: ele \u00e9 a falta, a parte do corpo da rainha violentamente retirada e que, como enuncia seu tamanho menor, mant\u00eam-se na dist\u00e2ncia. Com seus movimentos ela o leva consigo por onde quer que v\u00e1; ele \u00e9 o seu m\u00f3vel.<\/p>\n<p><strong>Agnaldo Farias<\/strong><br \/>\nMar\u00e7o de 2001<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=146\"><strong>&lt;&lt; VOLTAR\/BACK<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre me impressionou a fragilidade do rei no jogo de xadrez. Seus movimentos mi\u00fados, sua lenta evolu\u00e7\u00e3o pela ret\u00edcula do tabuleiro, in\u00e9rcia cultivada pela cerca de prote\u00e7\u00e3o montada por seu s\u00e9quito. 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