{"id":3725,"date":"2013-02-13T15:36:09","date_gmt":"2013-02-13T15:36:09","guid":{"rendered":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=3725"},"modified":"2013-02-13T15:40:42","modified_gmt":"2013-02-13T15:40:42","slug":"beth-moyses-qual-o-poder-da-arte","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/textostexts\/critica\/beth-moyses-qual-o-poder-da-arte\/","title":{"rendered":"Beth Moys\u00e9s: Qual o poder da arte?"},"content":{"rendered":"<p>Qual a medida do poder da arte  no sentido de alterar a vida? A arte pode mudar a realidade?<br \/>\nS\u00e3o essas as quest\u00f5es que frequentemente nos formulamos nos embates de arte-vida ou ao considerar arte e pol\u00edtica. Mas mesmo que a resposta n\u00e3o seja positiva, permanece a  po\u00e9tica que extrapola o real, e decorrente da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Na verdade, todo gesto art\u00edstico, e portanto, toda criatividade exposta, \u00e9 um ato pol\u00edtico. Seja ela de tend\u00eancia intimista, conceitual, abstrata, perform\u00e1tica ou figurativa, o ato de criar, de expor um ponto de vista atrav\u00e9s de um trabalho visual constitui uma interven\u00e7\u00e3o na ordem em que vivemos, e portanto, um posicionamento frente \u00e0 realidade. <\/p>\n<p>Por outro lado a arte sempre foi um fen\u00f4meno peculiar \u00e0 polis, dada sua caracter\u00edstica de manifesta\u00e7\u00e3o, sobretudo a partir de meados do s\u00e9culo XIX quando a articula\u00e7\u00e3o entre os cidad\u00e3os e sua forma de viver se alteram sensivelmente nas aglomera\u00e7\u00f5es urbanas cada vez mais densas.<\/p>\n<p>Estas considera\u00e7\u00f5es surgem da observa\u00e7\u00e3o do trabalho desenvolvido nos \u00faltimos anos por Beth Moys\u00e9s. Esta artista n\u00e3o parte de conceitos abstratos nem meramente matem\u00e1ticos. Seu ponto de partida \u00e9 o ser humano, mais especificamente. E com ele interage, seja na concep\u00e7\u00e3o de suas a\u00e7\u00f5es como em suas performances ou nos v\u00eddeos &#8211; aut\u00f4nomos enquanto cria\u00e7\u00e3o &#8211; decorr\u00eancias diretas de seus trabalhos feitos em geral in situ, em pleno meio urbano. O objeto de sua aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a mulher, na formula\u00e7\u00e3o de cada trabalho. A ela se dirige, sobre ela concebe a a\u00e7\u00e3o : sua condi\u00e7\u00e3o, sua dor, a agress\u00e3o de que \u00e9 alvo, suas aspira\u00e7\u00f5es. Assim, esta artista transita politicamente pelo universo feminino, que \u00e9 tamb\u00e9m o seu m\u00e9dium, e com ele dialoga h\u00e1 longos anos. Antes dos anos 2000 &#8211; em 1995 &#8211; j\u00e1 apresentou um fragmento de vestido de<br \/>\nnoiva esticado, retesado num bastidor. Ali\u00e1s, o vestido de noiva (qual a mulher que n\u00e3o desejou sempre vesti-lo uma vez?) foi sempre  emblem\u00e1tico de seu trabalho e identificou-a no meio art\u00edstico.<br \/>\nO ano 2000 foi marcante por sua performance no centro de S\u00e3o Paulo, cidade em que reside, quando 150 mulheres desfilaram vestidas de noiva pela Avenida Paulista, art\u00e9ria tradicional dessa capital. Desde ent\u00e3o, Beth Moys\u00e9s desdobrou esse trabalho em v\u00e1rios outros, sempre mobilizando dezenas de mulheres que sempre se dispuseram a participar de suas a\u00e7\u00f5es em vias publicas: Montevideo (Uruguay), Bogot\u00e1 (Colombia), Xangai, Madrid e outras seis cidades espanholas pelo menos assistiram nos \u00faltimos anos a suas propostas. Impressiona sempre a disponibilidade das participantes de seus projetos, sua compenetra\u00e7\u00e3o nas atua\u00e7\u00f5es a que s\u00e3o solicitadas \u2013 como captando a densidade da mensagem a comunicar, frequentemente emocionadas pelo teor do evento com o qual se identificam. <\/p>\n<p>Paralelamente aos desfiles urbanos, o c\u00edrculo, a roda, a uni\u00e3o em torno a um centro s\u00e3o disposi\u00e7\u00f5es constantes nas performances programadas por Beth Moys\u00e9s, como a lembrar-nos de um objetivo comum a irmanar as participantes de cada evento, como raios que disparam das bordas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 id\u00e9ia que as une . Pode ser uma \u201cmandala\u201d , como um mosaico de<br \/>\nm\u00e1rmore branco carregado cada placa por cada uma delas e colocado pelas pr\u00f3prias sessenta mulheres neste evento &#8211; usualmente nas periferias das grandes cidades brasileiras as mulheres costumam colaborar no trabalho comunit\u00e1rio de constru\u00e7\u00e3o de suas casas &#8211; diante do Mosteiro de S\u00e3o Bento em S\u00e3o Paulo. Ou ao delinear sobre as luvas em sua pr\u00f3pria m\u00e3o, as linhas essenciais de suas vidas (C\u00e1ceres, Espanha), ou ao executarem trabalhos de modelagem com massa que se assemelharia ao sangue (Murcia, Espanha). A nostalgia e melancolia, algumas vezes, e a dramaticidade, em particular, \u00e9 uma constante no clima criado a partir destas a\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas carregadas de dor, presentes nas obras de Beth Moys\u00e9s. \u00c9 o caso, sobretudo, de sua a\u00e7\u00e3o em Zaragoza e Salamanca, Espanha, em sua performance \u201cDilu\u00eddas em \u00e1gua\u201d. Nessa ocasi\u00e3o mobilizou 40 mulheres que se apresentam, como invariavelmente  em suas propostas, de vestimenta branca (\u201co branco para mim tem o sentido de uniformizar a a\u00e7\u00e3o do grupo\u201d, diz a artista, que anseia, assim, por que o gesto ou atitudes de cada uma seja o da uni\u00e3o de todas). O avesso do vestido de vinte destas mulheres  neste caso, que residem numa Casa-Abrigo em virtude de agress\u00f5es sofridas, trazem textos\/palavras escritos em tinta vermelha por cada uma &#8211; uma delas chegou a redigir sobre o avesso, interioridade invis\u00edvel segredada, uma carta a seu ex-companheiro agressor &#8211; . As participantes desvestem estas roupas para lava-las com um alvo sab\u00e3o que deixa suas bacias plenas de \u00e1gua avermelhada (sangue \u00e9 dor?), manchada pela lavagem, antes de voltar a vestir as roupas lavadas, agora tornadas rosadas no final do evento.     <\/p>\n<p>Assim, h\u00e1 sempre uma alegoria, ou uma narrativa impl\u00edcita no roteiro de seus trabalhos, que nunca \u00e9 casual.  A beleza plastica est\u00e1 presente no cuidado com a produ\u00e7\u00e3o de cada performance assim como na excel\u00eancia da filmagem e edi\u00e7\u00e3o de cada video, (como em \u201cY pasa\u201d, em que s\u00e3o novamente enfatizadas as cores branca e vermelha, dominantes em<br \/>\nseus trabalhos).<br \/>\nEm \u201cDripping\u201d, performance-video em que a artista e sua filha participam enquanto personagens, extraindo &#8211; e bordando? &#8211; p\u00e9rolas em vestido de noiva de maneira acurada como uma cirurgia, tem em sua lentid\u00e3o envolvente uma atmosfera similar \u00e0 que percebemos em \u201cExtraindo espinhos\u201d, longos talos de rosas dos quais os espinhos s\u00e3o<br \/>\nremovidos um a um, com uma \u00edntima e sutil sonoridade.<br \/>\nAfinal, nos perguntamos ao considerar o desenvolvimento de Beth Moys\u00e9s, em cuja obra percebemos tamb\u00e9m uma cumplicidade t\u00e1cita com as mulheres-personagens que aceitam se irmanar com ela em seus eventos: \u00e9 t\u00e3o doloroso assim o \u201cser mulher\u201d? <\/p>\n<p>Na verdade, a mulher atrav\u00e9s das culturas, religi\u00f5es e dos s\u00e9culos aparece sempre como personagem coadjuvante, servente, e n\u00e3o agente. Ainda hoje a pr\u00e1tica da ignominiosa circuncis\u00e3o feminina na cultura isl\u00e2mica, a escravid\u00e3o for\u00e7osa em paises do Oriente e Oriente M\u00e9dio, nos quais a mulher n\u00e3o tem o direito de estudar ou escolher seu<br \/>\ncompanheiro, o tr\u00e1fico dom\u00e9stico ou internacional de mulheres, a agress\u00e3o ou o abuso sexual no mundo de nossos dias, em sociedade ou por pessoas da pr\u00f3pria fam\u00edlia &#8211; ou com ela coniventes &#8211;  s\u00e3o demonstra\u00e7\u00f5es claras de que em todas as classes sociais vigora sempre impunemente o desrespeito \u00e0 mulher frente a seus direitos como ser humano e cidad\u00e3 com a mesma dignidade que o homem.<\/p>\n<p>Prova disso \u00e9 a performance \u201cRemoving pain\u201d, que agora a artista apresenta na Irlanda, e em que aborda, de maneira particular, as agress\u00f5es de que \u00e9 alvo o ser feminino, n\u00e3o ao longo do tempo, mas em pleno s\u00e9culo XXI. Depois de simbolicamente \u201capagar\u201d as manchas das agress\u00f5es f\u00edsicas \u00e9 enterrado o pano que fez desaparecer as marcas de seu sofrimento, e em seguida, \u00e9 semeado arroz em torno ao c\u00edrculo, alusivo ao plantio para uma constru\u00e7\u00e3o futura, gesto de otimismo e esperan\u00e7a que nutre a humanidade.  <\/p>\n<p>Assim, longe de ser uma licen\u00e7a po\u00e9tica aquela praticada por Beth Moys\u00e9s, uma fantasia de priva\u00e7\u00f5es recorrentes, trata-se antes de um ato de mobiliza\u00e7\u00e3o, ao expor com clareza a situa\u00e7\u00e3o da mulher com a delicadeza que lhe \u00e9 peculiar em sua criativa praxis visual, chamando a aten\u00e7\u00e3o para o \u201cmedo\u201d em que estremecem as que convivem em situa\u00e7\u00f5es<br \/>\npermanentes de risco em todos os paises do mundo.<\/p>\n<p><strong>Aracy Amaral<\/strong><br \/>\nSetembro 2010<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=146\"><strong>&lt;&lt; VOLTAR\/BACK<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual a medida do poder da arte no sentido de alterar a vida? 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