{"id":3739,"date":"2013-02-13T15:54:35","date_gmt":"2013-02-13T15:54:35","guid":{"rendered":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=3739"},"modified":"2013-02-13T15:57:47","modified_gmt":"2013-02-13T15:57:47","slug":"memoria-do-afeto-da-consolacao-ao-paraiso","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/textostexts\/critica\/memoria-do-afeto-da-consolacao-ao-paraiso\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria do Afeto: Da Consola\u00e7\u00e3o ao Para\u00edso"},"content":{"rendered":"<p>Desde 1994, a artista Beth Moys\u00e9s assumiu o vestido de noiva como instrumento de articula\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas sobre as rela\u00e7\u00f5es amorosas e tudo que as cerca.<\/p>\n<p>Primeiro, como num tapete gigante e surreal, forrou o teto de uma capela com um arsenal de vestidos de noiva. Elevados \u00e0s alturas, eles falavam de promessas, denunciavam expectativas reduzidas a brancas nuvens, demonstravam uma aus\u00eancia literal de p\u00e9s no ch\u00e3o. Dependurados pelas saias, sem corpos, recheados com panos, an\u00f4nimos, os vestidos transpiravam solid\u00e3o e desencanto e sugeriam um campo minado de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Nesse momento, a cr\u00edtica desencantada \u00e9 substitu\u00edda por uma en\u00e9rgica performance-manifesto. Os vestidos s\u00e3o finalmente (re)ocupados. Descem ao ch\u00e3o, s\u00e3o habitados pelas mulheres aos quais pertenciam. Por mais velhos, apertados ou folgados, curtos ou longos que estejam agora, ao vest\u00ed-los, elas (re)clamam as mem\u00f3rias de amor e afetividade que a simples presen\u00e7a do vestido ritualizava num momento espec\u00edfico do passado.<\/p>\n<p>Os corpos dessas mulheres vestidas de noiva caminham hoje pelas ruas e avenidas num percurso em que as promessas do passado se mesclam e reivindicam concretiza\u00e7\u00e3o no futuro. Que todo sonho embutido no s\u00edmbolo do vestido branco se torne a bandeira da paz, do amor e da solidariedade a espelhar e penetrar o agora em diante.<\/p>\n<p>Carregando rosas, cujas p\u00e9talas s\u00e3o desgarradas e jogadas ao ch\u00e3o, as mulheres parecem querer rastrear uma mem\u00f3ria e contaminar o espa\u00e7o urbano e seus habitantes com sentimentos de paz e afeto. Por fim, \u00e0 chegada, as hastes nuas das rosas, pontuadas agora somente por espinhos s\u00e3o despejadas numa profunda cratera cavada por suas pr\u00f3prias m\u00e3os, na terra. As dores s\u00e3o enterradas num ato simb\u00f3lico que combina coragem e resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que essa performance-manifesto transcende os limites da arte e ganha um significado de urg\u00eancia amorosa dentro de um universo de viol\u00eancias cotidianas, que come\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es familiares e contamina todos os tipos de situa\u00e7\u00f5es na vida da cidade.<\/p>\n<p>Que as mulheres vestidas de branco possam completar seu percurso, contagiando outras pessoas pelo caminho. Que possam de fato enterrar seus espinhos.<\/p>\n<p>E que esse caminho substitua uma atitude resignada, de consola\u00e7\u00e3o, e clame por um estado tomado por uma generosa e contagiosa afetividade. Que ele seja seguido.<\/p>\n<p><strong>Katia Canton<\/strong><br \/>\nCr\u00edtica de Arte<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=146\"><strong>&lt;&lt; VOLTAR\/BACK<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 1994, a artista Beth Moys\u00e9s assumiu o vestido de noiva como instrumento de articula\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas sobre as rela\u00e7\u00f5es amorosas e tudo que as cerca. Primeiro, como num tapete gigante e surreal, forrou o teto de uma capela com um arsenal de vestidos de noiva. 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