{"id":3750,"date":"2013-02-13T16:11:32","date_gmt":"2013-02-13T16:11:32","guid":{"rendered":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=3750"},"modified":"2013-02-13T16:13:29","modified_gmt":"2013-02-13T16:13:29","slug":"forro-de-sonhos-palidos","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/textostexts\/critica\/forro-de-sonhos-palidos\/","title":{"rendered":"Forro de Sonhos P\u00e1lidos"},"content":{"rendered":"<p>Ao escolher o teto de uma capela como moldura, Beth Moys\u00e9s cria, inevitavelmente, um meta-coment\u00e1rio sobre a tradi\u00e7\u00e3o da arte ocidental. Particularmente, no renascimento italiano, tetos de capelas se tornaram grandes paradigmas da arte, somando obras como o afresco \u201c Adora\u00e7\u00e3o dos Reis Magos\u201d, realizado entre 1304 e 1306 por Giotto na Capela Arena, em P\u00e1dua, e, posteriormente, com a hist\u00f3ria de Ad\u00e3o e Eva que Miguelangelo executou entre 1508 e 1512 para o teto da Capela Sistina, no Vaticano.<br \/>\nMas o Tom de rever\u00eancia hist\u00f3rica toma rumo inverso quando a artista substitui a cria\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica pelo uso direto de materiais extraidos do cotidiano. Num momento de efervescentes discuss\u00f5es conceituais, em que os artistas contempor\u00e2neos se envolvem em narrativas que recontam sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, Moys\u00e9s costura em seu trabalho tecidos, texturas, ranhuras de uma leitura pessoal de vida. Isso \u00e9 feito arremessando ao alto uma tape\u00e7aria anonima e coletiva composta de exemplares do grande mito feminino: o vestido de noiva.<br \/>\nPara rediscutir o mito ela se apropria diretamente de seu objeto. Forra estrategicamente o teto da capela com uma soma de 25 vestidos. S\u00e3o vestidos-reais, usados em casamento de amigas, de parentes e da pr\u00f3pria artista. S\u00e3o tamb\u00e9m vestidos-artif\u00edcios, comprados, montados, negociados em lojas. Grudados pelas saias, formando um \u00fanico e longo tecido, os vestidos exibem seus corpetes dependurados, feito l\u00e1grimas paradas no ar, recheados apenas com pano. Elevados a altura do teto, cobrindo com o sil\u00eancio do branco o templo cat\u00f3lico, os vestidos reverberam sonhos, expectativas, juras, promessas. Eles falam de ilus\u00e3o, da literal aus\u00eancia de p\u00e9 no ch\u00e3o. Dependurados pelas saias, corpetes para o ch\u00e3o, os vestidos apontam para um final de conto-de-fadas que virou de ponta cabe\u00e7a. E que perdeu o rosto. Recheados apenas de pano, vazios, esses vestidos aludem a solid\u00e3o. Comentam a falta de protagonistas, a aus\u00eancia de sujeitos para tantos sonhos brancos.<br \/>\nA quantidade de cetim, de tafet\u00e1, de tule, de perolas falsas, brocados, rendas e vidrilhos, materiais aplicados a instala\u00e7\u00e3o, funciona como uma mir\u00edade de interpreta\u00e7\u00f5es conceituais que se pode costurar a obra. H\u00e1 v\u00e1rios corpos ali. Todos falam e falam de todas as mulheres.<br \/>\nA multiplica\u00e7\u00e3o dos vestidos grudados se amplia como num espelho m\u00e1gico e multifacetado. Na repeti\u00e7\u00e3o, a artista opera a amplia\u00e7\u00e3o de um campo emocional que reverbera um espa\u00e7o e um tempo ilimitados. O tempo passa e a primazia soberana e irrefut\u00e1vel do vestido branco permanece.<br \/>\nNo desfile de tecidos esbranqui\u00e7ados, diferen\u00e7as de tons ensaiam um poss\u00edvel cl\u00edmax, esfuma\u00e7am no ar uma esperada mudan\u00e7a. Mas as pequenas nuances entre o branco , o cinza e o bege dos vestidos funcionam como mecanismos de trompe I\u2019oeil. O tom-sobre-tom limita-se a manchar sutilmente os panos imaculados.<br \/>\nA instala\u00e7\u00e3o de Beth Moys\u00e9s tem um aspecto construtivo que sintetiza sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria como artista. Em sua arte, ela exercita consistentemente coment\u00e1rios sobre uma iconografia impregnada de ideologias sobre o feminino.<br \/>\nNo inicio dos anos 90, a artista trabalhou com buchas, que aludiam as compuls\u00f5es com limpeza e purifica\u00e7\u00e3o e ao p\u00e2nico de corpos que menstruam. Depois ela trabalhou com constru\u00e7\u00f5es de meias de seda, que rasgadas, pintadas e reconstru\u00eddas, teciam metonimias e clich\u00eas da sensualidade.<br \/>\nA partir de 1994, Moys\u00e9s passou a trabalhar com o s\u00edmbolo do vestido de noiva. Ent\u00e3o, impressas sobre tela, as constru\u00e7\u00f5es da artista tornavam corpo como met\u00e1foras que incluiam colchetes, redes cheias de alian\u00e7as, panos con manchas de sangue, tules queimados, costurados, ora sujos de p\u00f3 de caf\u00e9. Avia tamb\u00e9m bot\u00f5es, meias-cal\u00e7as arrast\u00e3o, peda\u00e7os de tecido dobrados na forma de len\u00e7\u00f5is nupciais ou de vaginas. Mais recentemente, ela passou a trabalhar com buques e camafeus.<br \/>\nNessa instala\u00e7\u00e3o a artista libera-se do chassi, das molduras, das constru\u00e7\u00f5es muito elaboradas. Simplesmente costurando vestidos e mais vestidos de noiva, faz um trabalho quase minimal. Mesmo que, paradoxalmente, ele parece saturado de significados.<br \/>\nBeth Moys\u00e9s \u00e9 uma artista corajosa. Tecendo coment\u00e1rios sobre a condi\u00e7\u00e3o feminina, ela n\u00e3o se exime da pr\u00f3pria presen\u00e7a na obra. Incorpora seu pr\u00f3prio vestido a voz coletiva do teto da capela, do mesmo modo como, em 1994, usou seu pr\u00f3prio sangue para tingir um v\u00e9u de noiva.<br \/>\nEcoando o trabalho de uma gera\u00e7\u00e3o de artistas contempor\u00e2neos, ela substitui a met\u00e1fora pelo carimbo da a\u00e7\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p><strong>Katia Canton<\/strong><\/p>\n<p>* escritora, critica de artes, docente do Museu de Arte Contempor\u00e2nea da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=146\"><strong>&lt;&lt; VOLTAR\/BACK<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao escolher o teto de uma capela como moldura, Beth Moys\u00e9s cria, inevitavelmente, um meta-coment\u00e1rio sobre a tradi\u00e7\u00e3o da arte ocidental. 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