{"id":3828,"date":"2013-02-13T18:28:24","date_gmt":"2013-02-13T18:28:24","guid":{"rendered":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=3828"},"modified":"2013-02-13T18:34:16","modified_gmt":"2013-02-13T18:34:16","slug":"auscultame","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/textostexts\/critica\/auscultame\/","title":{"rendered":"Auscultame"},"content":{"rendered":"<p>Para Beth Moys\u00e9s, investigar o car\u00e1ter do abandono, dos maus tratos, da viol\u00eancia dom\u00e9stica, da perda de confian\u00e7a em si e no outro &#8212; que se manifesta como marca indel\u00e9vel de um registro oficial contratado entre partes &#8212; parece ser a estrat\u00e9gia ficcional de sua interven\u00e7\u00e3o em distintas realidades. Auscultame revela, de um corpo sobrevivente que abriga todas as dores do mundo, o intenso ind\u00edcio de exposi\u00e7\u00e3o do ser. A escuta, entre cada palavra, indica um interst\u00edcio nebuloso que oculta a dimens\u00e3o consciente de um gesto oscilante entre desesperan\u00e7a e amor. Almas prematuras, a incubadora suspensa, exp\u00f5e, da dor, a dor inconsciente de todas as presum\u00edveis perdas que ser\u00e3o consumadas em vida e em morte. O artif\u00edcio mec\u00e2nico &#8212; a incubadora, ou o dep\u00f3sito leg\u00edtimo de todas as seq\u00fcelas e plenas aus\u00eancias projetadas no espa\u00e7o dom\u00e9stico &#8211;, como que incorporado pela sombra de todos os cora\u00e7\u00f5es prematuros, ressignifica a vida em circunst\u00e2ncia estranha, em um agora cont\u00ednuo. A dignidade da po\u00e9tica visual de Beth Moys\u00e9s resiste ao apagamento de dolorosas marcas, quando traduzidas por testemunhos de mulheres sobre desencontros e espasmos do cotidiano. Dessa formula\u00e7\u00e3o densa &#8212; da viol\u00eancia de g\u00eanero entregue ao recurso da recomposi\u00e7\u00e3o de corpos f\u00edsicos e ps\u00edquicos, processados pelo abandono &#8212; surge o testemunho de um compromisso \u00edntimo e confessional que a artista reafirma a cada projeto-documento. O testemunho \u00edntimo &#8212; relato comprometido como a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria de um drama vivo &#8212; exposto em fragmento, aberto a agulha e linha vermelha e entranhado em cambraia branca encontra o tempo conflituoso de projetos interrompidos pela realidade de vidas amorda\u00e7adas. Desta forma est\u00e1 materializado o diagrama de C\u00f3mo cambiar el amor. Coraz\u00f3n tejido, \u00f3rg\u00e3o encarnado em m\u00fasculo e art\u00e9rias, carrega consigo a narrativa compassada de todo o fluxo sangu\u00edneo, desencontrado em consci\u00eancia e dor. Empalidecido, confrontado pelo suporte rendado que o recebe e suporta suas dores, o cora\u00e7\u00e3o acomoda o fim de sua exist\u00eancia nula em significado e afeto e oculta outra exist\u00eancia, contundente, que se manifesta como real protagonista do drama dom\u00e9stico: a resist\u00eancia emudecida pelo confronto cotidiano. Coraz\u00f3n tejido instaura a circularidade de todo ato &#8212; desprovido de sentido ou amparado pelo sentimento &#8212; que redime em tempo cada gesto amargo da conviv\u00eancia e reativa a confian\u00e7a negociada entre o amor e o desamor.<\/p>\n<p><strong>Claudia Fazzolari<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=146\"><strong>&lt;&lt; VOLTAR\/BACK<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Beth Moys\u00e9s, investigar o car\u00e1ter do abandono, dos maus tratos, da viol\u00eancia dom\u00e9stica, da perda de confian\u00e7a em si e no outro &#8212; que se manifesta como marca indel\u00e9vel de um registro oficial contratado entre partes &#8212; parece ser a estrat\u00e9gia ficcional de sua interven\u00e7\u00e3o em distintas realidades. 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