{"id":4536,"date":"2013-09-05T16:55:38","date_gmt":"2013-09-05T16:55:38","guid":{"rendered":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=4536"},"modified":"2013-09-05T16:56:19","modified_gmt":"2013-09-05T16:56:19","slug":"diluidas-em-agua","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/textostexts\/critica\/diluidas-em-agua\/","title":{"rendered":"Dilu\u00eddas em \u00e1gua"},"content":{"rendered":"<p>Um elo invis\u00edvel conecta as performances de Beth Moys\u00e9s. Cada novo trabalho \u00e9 agregado ao desenho de um mapa subjetivo, que relaciona mulheres de S\u00e3o Paulo, Sevilha, Salamanca, Murcia, Las Palmas, Montevid\u00e9o, C\u00e1ceres, Madri, Bras\u00edlia e, agora, Zaragoza. Essas mulheres, sempre volunt\u00e1rias e muitas vezes marcadas por situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia em rela\u00e7\u00f5es afetivas, se aproximam em torno de uma po\u00e9tica situada na fronteira da experi\u00eancia est\u00e9tica e da mobiliza\u00e7\u00e3o social. A artista, propositora das viv\u00eancias, assume o papel de mediadora entre a intimidade emocional e o espa\u00e7o social. Quase sempre encenadas nas pra\u00e7as p\u00fablicas e nos centros nevr\u00e1lgicos das cidades, as a\u00e7\u00f5es celebram uma esp\u00e9cie de expia\u00e7\u00e3o dos reveses e abusos praticados contra a mulher. E, na medida em que os males s\u00e3o simbolicamente enterrados, queimados, lavados e dissolvidos no coletivo, evoca-se aqui a origem ritual\u00edstica da performance art\u00edstica. <\/p>\n<p>Os rituais propostos por Beth Moys\u00e9s t\u00eam introdu\u00e7\u00e3o solene. A entrada, em cortejo, \u00e9 o momento de apresenta\u00e7\u00e3o das personagens: sempre mulheres, sempre vestidas de branco, sempre uma express\u00e3o grave no semblante, sempre um objeto nas m\u00e3os. Na caminhada, h\u00e1 a evoca\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria de comunh\u00e3o. Mas esses n\u00e3o s\u00e3o os mesmos passos que conduziram noivas ao altar. No final do trajeto, a alian\u00e7a que se estabelece \u00e9 outra. Organizadas em roda, as participantes est\u00e3o prontas para trocas e transforma\u00e7\u00f5es. O c\u00edrculo favorece o fluxo e a circula\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados que ser\u00e3o processados durante a a\u00e7\u00e3o. O \u00e1pice do ato \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o dos objetos, sejam eles rosas, novelos de l\u00e3, luvas bordadas ou esponjas de cozinha, s\u00e3o ex votos, que representam hist\u00f3rias pessoais a serem superadas. <\/p>\n<p>Dilu\u00eddas em \u00e1gua, a performance concebida para a cidade de Zaragoza, assume um car\u00e1ter de purifica\u00e7\u00e3o. Quarenta mulheres participam da a\u00e7\u00e3o, mas vinte delas permanecem ocultas, resguardadas em seus abrigos e esconderijos. Essas mulheres, que possuem um hist\u00f3rico de agress\u00f5es, escrevem seus pensamentos em roupas brancas, que ser\u00e3o vestidas por outras vinte mulheres e levadas ao espa\u00e7o p\u00fablico da performance. \u00c0 \u00e1gua cabe revelar os pensamentos vermelhos ocultos sob o branco dos vestidos. No gesto de lavar, enxag\u00fcar e torcer a roupa para extrair da cor branca o vermelho, evidencia-se a rela\u00e7\u00e3o do trabalho com as \u201calian\u00e7as pelo sangue\u201d dos ritos sacrificiais. <\/p>\n<p>As performances de Beth Moys\u00e9s cont\u00eam tr\u00eas id\u00e9ias irredut\u00edveis: a interven\u00e7\u00e3o, a expia\u00e7\u00e3o e a reconstru\u00e7\u00e3o. \u00c1gua, fogo, terra, ou outros elementos utilizados no processo, v\u00eam evocar a mem\u00f3ria e restabelecer um sentido de integridade. De fato, decorre dessa po\u00e9tica uma restaura\u00e7\u00e3o, que pode ser pressentida em \u00e2mbito pessoal (com a alimenta\u00e7\u00e3o do afeto e da auto-estima das participantes), mas principalmente no \u00e2mbito social. Afinal, a experi\u00eancia est\u00e9tica da performance vem devolver \u00e0s mulheres a express\u00e3o de sua pot\u00eancia. <\/p>\n<p><strong>Paula Alzugaray<br \/>\njunho de 2008<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=146\"><strong>&lt;&lt; VOLTAR\/BACK<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um elo invis\u00edvel conecta as performances de Beth Moys\u00e9s. Cada novo trabalho \u00e9 agregado ao desenho de um mapa subjetivo, que relaciona mulheres de S\u00e3o Paulo, Sevilha, Salamanca, Murcia, Las Palmas, Montevid\u00e9o, C\u00e1ceres, Madri, Bras\u00edlia e, agora, Zaragoza. 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