{"id":4551,"date":"2013-09-06T01:52:53","date_gmt":"2013-09-06T01:52:53","guid":{"rendered":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=4551"},"modified":"2013-09-06T01:57:51","modified_gmt":"2013-09-06T01:57:51","slug":"leito-vermelho","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/textostexts\/critica\/leito-vermelho\/","title":{"rendered":"Leito Vermelho"},"content":{"rendered":"<p>A \u00faltima  performance de Beth Moys\u00e9s Leito Vermelho determina uma nova dire\u00e7\u00e3o em sua  trajet\u00f3ria de artista perform\u00e1tica \u2013 uma das m\u00eddias que ela utiliza ao lado de  instala\u00e7\u00f5es, v\u00eddeos e fotografia. Desde 1998, Moyses organiza no Brasil, onde ela reside, e em diferentes cidades na Am\u00e9rica do Sul e Espanha, desfiles perform\u00e1ticos com mulheres maltratadas \u2013 muitas das quais moram em abrigos.  Estas performances s\u00e3o prociss\u00f5es silenciosas. Muitas  vezes re\u00fanem at\u00e9 100 mulheres de baixa renda, que vestidas de noiva caminham silenciosamente pelas ruas movimentadas das cidades, denunciando a viol\u00eancia dom\u00e9stica. Os pedestres e os carros param e as mulheres tomam conta do espa\u00e7o p\u00fablico.<br \/>\nRealizada duas vezes, no Brasil e na Espanha, em Leito vermelho n\u00e3o participam mulheres com o sofrimento estampado em seus rostos. Desta vez, Moyses convidou seis jovens e atraentes estudantes para se sentarem em c\u00edrculo e concentrarem-se em seus cora\u00e7\u00f5es.  Com seus olhos voltados para baixo, suas m\u00e3os se movem por vezes rapidamente, e outras vezes muito devagar,  enquanto moldam seus pr\u00f3prios cora\u00e7\u00f5es usando 30 quilos de pasta de  batom vermelho que est\u00e1 no meio do c\u00edrculo. Possivelmente o p\u00fablico n\u00e3o saiba que esta subst\u00e2ncia vermelha \u00e9 semelhante \u00e0quela do batom que se  compra em um estojo de luxo.  No contexto da performance, \u00e9 apenas uma subst\u00e2ncia, talvez sensual, por causa de sua cor brilhante e sua plasticidade mas relacionada com o corpo e os sentidos, do que com a mente e o intelecto. Contra seus corpos, j\u00e1 que no Brasil as jovens estavam nuas, ou contra o fundo branco dos len\u00e7\u00f3is, como na Espanha, as m\u00e3os das mulheres manipulam  a pasta vermelha sistematicamente, explorando a plasticidade do material. O cora\u00e7\u00e3o vermelho que moldam  nos faz lembrar transmuta\u00e7\u00f5es alqu\u00edmicas, uma vez que para faz\u00ea-lo, elas espalham a pasta sobre seus corpos ou sobre o len\u00e7ol branco.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida sobre o impacto visual que a performance provoca. Em sua comunica\u00e7\u00e3o teatral, a moldagem daquelas formas semelhantes a um cora\u00e7\u00e3o, ou talvez s\u00f3 a representa\u00e7\u00e3o de sentimentos, cont\u00eam algo especial: somente as mulheres podem sentir aquela subst\u00e2ncia oleosa sobre seus corpos e somente elas podem transmitir com o movimento de  suas m\u00e3os agress\u00f5es  de todo tipo. Algumas fazem cora\u00e7\u00f5es de forma figurativa, outros n\u00e3o representam o real, mas independente da forma este ritual altamente elaborado est\u00e1 carregado de emo\u00e7\u00f5es. Na seq\u00fc\u00eancia da apresenta\u00e7\u00e3o \u2013a performance dura 1hora \u2013 as m\u00e3os das jovens, assim como seus corpos e os len\u00e7\u00f3is ficam impregnados com a massa vermelha. O cen\u00e1rio \u00e9 caprichosamente atmosf\u00e9rico,  ainda mais enfatizado pelo som  ambiente que , de acordo com a artista, \u00e9 semelhante a uma mantra que afeta diretamente o chacra do cora\u00e7\u00e3o.  A performance termina quando os participantes colocam seus cora\u00e7\u00f5es- objeto sobre partes de seus corpos e depois de sentir o contato da massa gordurosa devolvem de volta no centro do c\u00edrculo, onde o material estava originalmente .<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 exatamente uma surpresa que a artista que apresentou a maioria de suas performances no  espa\u00e7o p\u00fablico das ruas das cidades,  fizesse uso desta vez da estrutura e do conceito de um cen\u00e1rio mais formal: um espa\u00e7o limpo, onde o espectador n\u00e3o tem nenhuma distra\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser olhar as mulheres sentadas em c\u00edrculo manipulando esta substancia. N\u00e3o \u00e9  surpresa, porque desta vez, Moys\u00e9s est\u00e1 mais concentrada em mostrar o que est\u00e1 por dentro, do que expor o resultado p\u00fablico de um sofrimento interior. Mesmo que confinado a um espa\u00e7o de exposi\u00e7\u00f5es, Leito Vermelho ecoa al\u00e9m dos confins  deste espa\u00e7o e ressalta a  percep\u00e7\u00e3o do que acontece com os sentimentos antes que as marcas externas de dor f\u00edsica ou psicol\u00f3gica sejam vis\u00edveis exteriormente. Este \u00faltimo trabalho representa, assim,  uma nova dire\u00e7\u00e3o que envolve o racional, o emocional e o po\u00e9tico, mas mant\u00e9m suas ra\u00edzes na ess\u00eancia do trabalho de Moys\u00e9s, o ciclo da vida, morte e regenera\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p><strong>Berta Sichel<\/strong><br \/>\nDiretora, Departamento de Audiovisuales, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sof\u00eda (MNCARS), Madrid, ESPA\u00d1A.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=146\"><strong>&lt;&lt; VOLTAR\/BACK<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima performance de Beth Moys\u00e9s Leito Vermelho determina uma nova dire\u00e7\u00e3o em sua trajet\u00f3ria de artista perform\u00e1tica \u2013 uma das m\u00eddias que ela utiliza ao lado de instala\u00e7\u00f5es, v\u00eddeos e fotografia. 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