{"id":4601,"date":"2014-01-28T00:36:02","date_gmt":"2014-01-28T00:36:02","guid":{"rendered":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=4601"},"modified":"2014-01-28T00:41:22","modified_gmt":"2014-01-28T00:41:22","slug":"alem-da-linha-vermelha","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/textostexts\/critica\/alem-da-linha-vermelha\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m da linha vermelha"},"content":{"rendered":"<p>Por meio do vagar das protagonistas de suas performances, entre vestes desfeitas e s\u00edmbolos esvaziados, da paleta ruidosamente carregada de suas pinturas e do olhar ir\u00f4nico abrigado em seus trabalhos tridimensionais, Beth Moys\u00e9s cria, pouco a pouco, o corpus de uma obra pol\u00edtica bastante particular no Brasil. Reconhecida e presente em cole\u00e7\u00f5es importantes da Espanha e convidada para variadas participa\u00e7\u00f5es em mostras e bienais continentes afora _ ajudando a compor paisagens femininas potentes pela diversidade, dos alvos rostos de irlandesas e espanholas \u00e0s mulheres morenas de Panam\u00e1 e Brasil, por exemplo _, a artista paulistana parece encontrar pouco eco em seu territ\u00f3rio natal. Num pa\u00eds que forjou um conceito t\u00e3o contradit\u00f3rio como &#8216;racismo cordial&#8217;, \u00e9 compreens\u00edvel. \u201cO Brasil \u00e9 refrat\u00e1rio \u00e0 discuss\u00e3o das diferen\u00e7as no campo da arte: mulher, homem, negros, \u00edndios, brancos, japoneses, judeus, mu\u00e7ulmanos, homossexuais, colonialismo interno, pluralidade cultural, estrutura de classes. \u00c9 cool rejeitar de antem\u00e3o. Nesse sentido, o sistema de arte brasileiro n\u00e3o \u00e9 &#8216;politicamente incorreto&#8217;, mas antidemocr\u00e1tico\u201d1, aponta Paulo Herkenhoff, a respeito da coletiva Manobras Radicais, em 2006, com curadoria dele e uma das raras incurs\u00f5es sobre tal discuss\u00e3o de g\u00eanero na \u00e1rea das artes visuais por aqui.<br \/>\nA abordagem de Beth Moys\u00e9s transita entre um excesso quase barroco _ trilha sonora sublinhada em boa parte dos v\u00eddeos; o uso de cores a berrar, em especial o vermelho, em distintos suportes; a reiterada utiliza\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos de uma edulcorada pacifica\u00e7\u00e3o entre o masculino e o feminino, como o vestido de noiva, em muitas linguagens _ e um desenvolvimento mais silencioso _ a err\u00e2ncia nada barulhenta e ordenada das participantes, algo fantasm\u00e1ticas, das performances; a formaliza\u00e7\u00e3o dissolvida, incompleta e perme\u00e1vel de elementos de tais a\u00e7\u00f5es, como os escritos que desaparecem, ap\u00f3s lavagem, do vestu\u00e1rio das mulheres de Dilu\u00eddas em \u00c1gua, por exemplo. Sobre esse \u00faltimo trabalho, em Mi Pueblito, Panam\u00e1, em 2013, ressalte-se uma das vers\u00f5es mais interessantes da obra, com o centro da performance se constituindo numa fonte p\u00fablica, originalmente destinada a ornar um l\u00f3cus folcl\u00f3rico-tur\u00edstico do pa\u00eds centro-americano.<br \/>\nEntre a disson\u00e2ncia e o murm\u00fario, a espec\u00edfica situa\u00e7\u00e3o feminina das v\u00edtimas de viol\u00eancia em \u00e2mbito nacional ainda perturba. Mesmo que tenham sido estabelecidas legisla\u00e7\u00f5es protetivas como a Lei Maria da Penha (2006) e institui\u00e7\u00f5es em defesa dos direitos da mulher, lan\u00e7ando m\u00e3o de casas-abrigo, casas da mulher e locais com fun\u00e7\u00f5es similares, a den\u00fancia ainda \u00e9 minimizada. \u201cMais grave do que sofrer calada \u00e9 ir \u00e0 delegacia e ouvir do delegado: \u2018Vou pedir a medida protetiva. Pode voltar para casa\u2019. Ela volta para casa e a medida nunca \u00e9 expedida\u201d2, declara Eleonora Menicucci, titular da Secretaria de Pol\u00edticas para as Mulheres, \u00f3rg\u00e3o federal.<br \/>\nE a artista paulistana registrou essa espera angustiante numa s\u00e9rie de desenhos, Mulheres Divididas (2004), em que chinelos e cal\u00e7ados de salto baixo se sobrep\u00f5em em linhas e volumes como a frisar a zona de desconforto retratada. A t\u00e9cnica volta a ser exibida por ela na s\u00e9rie que formou a exposi\u00e7\u00e3o Hilo Conductor (2013), apresentada em Sevilha, Espanha. Nesse recente conjunto, Beth Moys\u00e9s conduz a priori mais placidamente o grafite, com linhas de costura, pontos, cerziduras, rasgos, furos, dedais, agulhas e coisas afins dominando a superf\u00edcie. No entanto, a calma \u00e9 enganadora. Logo parece que algo vai ser ferido e colapsar tal estrutura aparentemente est\u00e1vel.<br \/>\nO v\u00eddeo e as fotografias que comp\u00f5em Coral Celestial (2013) tamb\u00e9m ostentam tal quietude tensa. Por meio da coleta de depoimentos de padres que ouvem com frequ\u00eancia confid\u00eancias de mulheres que sofrem cotidianamente viol\u00eancia dom\u00e9stica, a artista une planos com os l\u00e1bios das v\u00edtimas, a estrutura quadriculada de madeira que separa sacerdote e confessor e a voz em off dos religiosos, sempre incentivando a procura de ajuda oficial para acabar com a dolorosa situa\u00e7\u00e3o. Mesmo que os titulares da Igreja Cat\u00f3lica estejam mais avan\u00e7ados _ rememore-se a vigorosa atividade da Inquisi\u00e7\u00e3o contra as mulheres nos pa\u00edses ib\u00e9ricos _, um cont\u00ednuo estado de inc\u00f4modo n\u00e3o cessa ao finalizarmos a visada sobre as obras.<br \/>\n\u201c\u00c9 preciso considerar que as quest\u00f5es relacionadas ao corpo e \u00e0 sexualidade feminina ainda s\u00e3o assuntos muito delicados na pol\u00edtica das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Por qu\u00ea? Ora, porque a desigualdade de g\u00eaneros persiste. O corpo e a sexualidade feminina s\u00e3o sempre alvo de controv\u00e9rsias, pois s\u00e3o os principais campos de batalha para conservadores e progressistas no mundo inteiro\u201d3, argumenta a canadense Fran\u00e7oise Girard, presidente da International Women\u2019s Health Coalition.<br \/>\nSe os fatos corroboram para a inquietude que permanece no observador mais atento _ assim como o som ininterrupto dos aparelhos hospitalares na performance Huecos del Alma (2008), talvez uma das mais bem-sucedidas incurs\u00f5es da artista nessa linguagem _ , traz regozijo perceber que uma s\u00e9rie de novas artistas, com investiga\u00e7\u00f5es bem diversas, dialogam com a produ\u00e7\u00e3o de Beth Moys\u00e9s. O campo de batalha ainda est\u00e1 aberto para o sens\u00edvel, mesmo que o tento final, esperemos que positivo ao feminino, ainda esteja longe de ser alcan\u00e7ado.<br \/>\n<strong>Mario Gioia, maio de 2013<\/strong><\/p>\n<p>Graduado pela ECA-USP (Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo), coordena pelo terceiro ano o projeto Zip&#8217;Up, na Zipper Galeria, destinado \u00e0 exibi\u00e7\u00e3o de novos artistas e projetos in\u00e9ditos de curadoria. Foi o curador de Ela Caminha em Dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Fronteira, de Ana Mazzei, primeira individual da s\u00e9rie de exposi\u00e7\u00f5es Zip&#8217;Up em 2012 (nesse ano, tamb\u00e9m houve Lugar do Outro, de Julia Kater, Transmission, de Geraldo Marcolini, \u00cdntima A\u00e7\u00e3o, de Carolina Paz, Planisf\u00e9rio, de Marina Camargo, Requadros, de Mariana Tassinari, e a coletiva Imagem Mi(g)rante). Em 2012, tamb\u00e9m fez as curadorias de Incerto Limite, de Shirley Paes Leme (Bolsa de Arte, Porto Alegre); Miragem, de Romy Pocztaruk, e Distante Presente, de Gordana Manic (ambas na galeria \u00cdmpar). Em 2011, inaugurou o projeto Zip&#8217;Up com a coletiva Presen\u00e7as (que teve como outras mostras J\u00e1 Vou, de Alessandra Duarte, A\u00e9reos, de Fabio Flaks, Perto Longe, de Aline van Langendonck, Paragem, de Laura Gorski, Hotel Tropical, de Jo\u00e3o Castilho, e a coletiva Territ\u00f3rio de Ca\u00e7a, com a mesma curadoria). Em 2010, fez Incompletudes (galeria Virgilio), Media\u00e7\u00f5es (galeria Motor) e Espacialidades (galeria Central), al\u00e9m de ter realizado acompanhamento cr\u00edtico de Ateli\u00ea Fidalga no Pa\u00e7o das Artes. Em 2009, fez as curadorias de Obra Menor (Ateli\u00ea 397) e Lugar Sim e N\u00e3o (galeria Eduardo Fernandes). Foi rep\u00f3rter e redator de artes e arquitetura no caderno Ilustrada, no jornal Folha de S.Paulo, de 2005 a 2009, e atualmente colabora para diversos ve\u00edculos, como as revistas Bravo e Bamboo e o portal UOL, al\u00e9m da revista espanhola Dardo e da italiana Interni. \u00c9 coautor de Roberto M\u00edcoli (Bei Editora) e faz parte do grupo de cr\u00edticos do Pa\u00e7o das Artes, institui\u00e7\u00e3o na qual fez o acompanhamento cr\u00edtico de Black Market (2012), de Paulo Almeida, e A Riscar (2011), de Daniela Seixas. \u00c9 cr\u00edtico convidado do Programa de Fotografia 2012\/2013 do CCSP (Centro Cultural S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>1. BUARQUE DE HOLLANDA, Heloisa e HERKENHOFF, Paulo (org.). Manobras Radicais. S\u00e3o Paulo, Centro Cultural Banco do Brasil, 2006, p. 17<br \/>\n2. ARBEX, Thais. O crime contra a mulher est\u00e1 mais cruel. O Estado de S.Paulo, Caderno 2, 25.mar.2013, p. D2<br \/>\n3. SAYURI, Juliana. N\u00e3o ande sozinha? O Estado de S.Paulo, caderno Ali\u00e1s, 10.mar.2013, p. J5<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=146\"><strong>&lt;&lt; VOLTAR\/BACK<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por meio do vagar das protagonistas de suas performances, entre vestes desfeitas e s\u00edmbolos esvaziados, da paleta ruidosamente carregada de suas pinturas e do olhar ir\u00f4nico abrigado em seus trabalhos tridimensionais, Beth Moys\u00e9s cria, pouco a pouco, o corpus de uma obra pol\u00edtica bastante particular no Brasil. 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