{"id":4606,"date":"2014-01-28T00:49:57","date_gmt":"2014-01-28T00:49:57","guid":{"rendered":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=4606"},"modified":"2014-01-28T00:56:22","modified_gmt":"2014-01-28T00:56:22","slug":"paco-das-artes-pt","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/textostexts\/critica\/paco-das-artes-pt\/","title":{"rendered":"Pa\u00e7o das Artes (PT)"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 como o dia do casamento para a noiva. \u201cMem\u00f3ria do Afeto\u201d \u00e9 uma obra de apenas algumas horas de dura\u00e7\u00e3o\u00a0 mas tem o impacto do meteoro que nocauteia o Papa na famosa instala\u00e7\u00e3o de Maurizio Cattelan. Isso acontece em v\u00e1rios trabalhos ef\u00eameros de Beth Moys\u00e9s. A compara\u00e7\u00e3o com o artista italiano \u00e9 propositada: em \u201cAus\u00eancia de Alma\u201d (1998), que permaneceu dois \u00fanicos dias no Parque da Independ\u00eancia, um vestido de noiva moldado em resina encenava um corpo ca\u00eddo e contorcido de dor. O assombro desta queda irremedi\u00e1vel de um \u00edcone guarda semelhan\u00e7a com o da pe\u00e7a \u201cLa Nona Ora\u201d, de Cattelan.<\/p>\n<p>Em relato sobre o trabalho de 1999, o artista afirma que quando foi instalar pela primeira vez a escultura de cera, levou dois dias para decidir p\u00f4r as m\u00e3os no \u201ccorpo\u201d do Papa Jo\u00e3o Paulo 2\u00ba. Em princ\u00edpio a instala\u00e7\u00e3o consistiria em posiciona-lo de p\u00e9 no meio de um espa\u00e7o imenso, mas ent\u00e3o Cattelan percebeu que algo mais deveria ser feito. O que era para ser um gesto c\u00ednico tornou-se um desafio: confrontar um s\u00edmbolo \u201csagrado\u201d, fazer colidir religi\u00e3o e blasf\u00eamia para falar de uma vida cotidiana ditada por contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O vestido de noiva manipulado por Beth Moys\u00e9s inscreve-se no mesmo ide\u00e1rio. Confrontado com o teste de realidade que se segue ao casamento, o s\u00edmbolo termina por assumir configura\u00e7\u00e3o oposta: o fantasma de noiva estendido na pra\u00e7a \u00e9 o negativo da postura triunfal da mulher entrando na Igreja com passo lento e aura de esperan\u00e7a que n\u00e3o conhecer\u00e1 paralelo no restante de sua vida. Esse \u201ccorpo\u201d que era oco em \u201cAus\u00eancia de Alma\u201d e vaporoso em \u201cForro de Sonhos P\u00e1lidos\u201d (1996), quando a artista preencheu o teto da Capela do Morumbi com vestidos de noiva entrela\u00e7ados, assumiu subst\u00e2ncia concreta com a performance \u201cMem\u00f3ria do Afeto\u201d (2000).<\/p>\n<p>Eram mais de cem mulheres fantasiadas de noiva. O branco do vestido contrastava com o cinza da cidade assim como a displic\u00eancia das mulheres com a cauda do traje varrendo a imundice da rua contrastava com o zelo que costuma cercar a fantasia. Caminharam em sil\u00eancio pela avenida Paulista despetalando rosas brancas ao longo do trajeto. Todos os vestidos utilizados na performance estavam \u201cimpregnados de mem\u00f3ria\u201d, pois foram coletados entre conhecidas da artista e em lojas de roupas usadas. \u201cO encontro do tempo retido com o tempo vivido\u201d, nas palavras de Beth Moys\u00e9s, reflete a contradi\u00e7\u00e3o na vida das mulheres. No final do trajeto um enterro simb\u00f3lico do passado: o que restou dos buqu\u00eas (os espinhos) foi jogado em um buraco na pra\u00e7a Oswaldo Cruz e recoberto por terra pelas pr\u00f3prias noivas empunhando pesadas p\u00e1s.<\/p>\n<p>A performance ocorreu no Dia Internacional da N\u00e3o Viol\u00eancia Contra a Mulher e a maioria das participantes era v\u00edtima de viol\u00eancia dom\u00e9stica, principalmente integrantes da Organiza\u00e7\u00e3o das Mulheres Independentes do Jardim S\u00e3o Francisco, bairro na periferia de S\u00e3o Paulo, conseq\u00fc\u00eancia natural de uma produ\u00e7\u00e3o sempre voltada para o tema da viol\u00eancia ao utilizar como mat\u00e9ria-prima o vestido de noiva. \u201c\u00c9 como se eu tirasse ele da caixa e recuperasse o afeto que ficou retido naquele vestido, a felicidade do dia em que uma mulher se prop\u00f5e a viver com algu\u00e9m. Ao resgatar esse sentimento, busco confront\u00e1-lo com o dia-a-dia dessas mulheres, com o que sofrem dentro de uma sociedade patriarcal\u201d, afirma, referindo-se \u00e0 hist\u00f3ria da viol\u00eancia contra a mulher, que a artista pesquisa em sua tese de Mestrado.<\/p>\n<p>Um dos dados alarmantes com que se confrontou, por exemplo, \u00e9 que 85% das v\u00edtimas da Inquisi\u00e7\u00e3o eram mulheres. \u201cA Igreja foi c\u00famplice dessa viol\u00eancia, uma institui\u00e7\u00e3o que ditou regras que escravizaram a mulher durante muito tempo. Em\u00a01215, quando a confiss\u00e3o tornou-se obrigat\u00f3ria, a Igreja come\u00e7ou a controlar as rela\u00e7\u00f5es matrimoniais. E o controle se mant\u00e9m at\u00e9 hoje. Eu ouvi de mulheres na delegacia -que recorreram primeiro ao confession\u00e1rio para dizer que estavam sendo v\u00edtimas de viol\u00eancia- que o discurso dos padres \u00e9 o mesmo de ent\u00e3o: \u2018voc\u00ea precisa ter resigna\u00e7\u00e3o, voc\u00ea precisa aceitar\u2019, uma delas disse assim: \u2018mas eu pensei em procurar a delegacia da mulher\u2019 e ouviu como resposta \u2018o que voc\u00ea tem \u00e9 que rezar muito e pedir perd\u00e3o por todas as vezes em que voc\u00ea pensou em se separar desse marido, voc\u00ea tem que ajuda-lo\u2019.\u201d<\/p>\n<p><strong>A exposi\u00e7\u00e3o que Beth Moys\u00e9s apresenta no Pa\u00e7o das Artes como artista convidada da Temporada de Projetos alinhava o percurso da obra que foi da hist\u00f3ria pessoal para a experi\u00eancia coletiva e social.<\/strong> A obra mais antiga \u00e9 \u201cLuta\u201d (1998), luvas de boxe forradas de cetim e bordadas com p\u00e9rolas e outros adere\u00e7os de vestido de noiva. O objeto prenuncia a cena bel\u00edssima da noiva empunhando uma p\u00e1 no registro da performance na avenida Paulista, prenuncia a quest\u00e3o da luta travada entre quatro paredes, que do ambiente \u00edntimo e privado a artista viria a fazer extravasar para o espa\u00e7o p\u00fablico. Mas guarda ainda o car\u00e1ter do fazer intimista dos trabalhos anteriores, por\u00e9m n\u00e3o menos emancipador. Louise Bourgeois j\u00e1 dizia: \u00absempre tive um fasc\u00ednio pela agulha, pelo poder m\u00e1gico da agulha. A agulha \u00e9 usada para reparar o estragado. \u00c9 um grito contra o esquecimento\u00bb.<\/p>\n<p>O tr\u00e2nsito do individual ao coletivo na trajet\u00f3ria de Beth Moys\u00e9s fica mais evidente na obra \u201cAlmas Prematuras\u201d, uma incubadora que cont\u00e9m 200 cora\u00e7\u00f5es de argila. A pe\u00e7a fica em um ambiente feito com um pano branco, de vestido de noiva, e funciona como uma sala de passagem que leva at\u00e9 o v\u00eddeo \u201cDespontando N\u00f3s\u201d, feito com as mulheres do grupo do Jardim S\u00e3o Francisco, com quem a artista passou a trabalhar regularmente desde a performance na avenida Paulista. O pano de fundo s\u00e3o caules de rosa, o primeiro plano as m\u00e3os calejadas quebrando os espinhos. A artista pedia que as mulheres pensassem no que elas haviam passado e retirassem os espinhos. O som \u00e9 apenas o barulho seco dos espinhos, tratado em est\u00fadio. \u00c0s vezes lembra o som de um tiro, \u00e0s vezes das batidas de um cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A escolha de uma incubadora como mat\u00e9ria-prima evidencia o prop\u00f3sito de salvar: \u201c\u00c9 como se eu falasse de uma alma em processo neste trabalho\u201d, explica a artista, \u201cse esses cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o estivessem dentro de uma incubadora, meu trabalho n\u00e3o existiria. Se as almas n\u00e3o estivessem em processo, se elas j\u00e1 tivessem evolu\u00eddo o suficiente, no sentido de ter atingido realmente a capacidade de amar \u2013porque quem ama n\u00e3o violenta-, n\u00e3o faria sentido fazer o trabalho que eu fa\u00e7o\u201d. A obra sinaliza um amadurecimento, fala do presente como um per\u00edodo transit\u00f3rio, como um per\u00edodo que tende a melhorar.<\/p>\n<p>A obra \u201cRainha\u201d (2000), que coloca em um tabuleiro de xadrez com casas de uma \u00fanica cor a rainha trespassada pelo rei, cuja pe\u00e7a est\u00e1 ausente, trata da mesma utopia, colocando em quest\u00e3o uma poss\u00edvel invers\u00e3o do poder. As leituras s\u00e3o m\u00faltiplas: o s\u00edmbolo do feminino cont\u00e9m seu oposto ou carrega a mem\u00f3ria dele como um vazio que n\u00e3o se pode preencher? A id\u00e9ia de amadurecimento, que tornaria o homem mais sens\u00edvel, \u00e9 o que est\u00e1 em jogo tamb\u00e9m na fotografia da s\u00e9rie \u201cNoivas do Carandiru\u201d (2000), registro de um casamento coletivo que aconteceu na Casa de Deten\u00e7\u00e3o, mostrando uma figura extremamente sofrida que, mesmo assim, quer se vestir de Cinderela, e pode viver, enquanto o marido estiver confinado, seu conto de fadas.<\/p>\n<p><strong>Juliana Monachesi<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bethmoyses.com.br\/site\/?page_id=146\"><strong>&lt;&lt; VOLTAR\/BACK<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 como o dia do casamento para a noiva. \u201cMem\u00f3ria do Afeto\u201d \u00e9 uma obra de apenas algumas horas de dura\u00e7\u00e3o\u00a0 mas tem o impacto do meteoro que nocauteia o Papa na famosa instala\u00e7\u00e3o de Maurizio Cattelan. Isso acontece em v\u00e1rios trabalhos ef\u00eameros de Beth Moys\u00e9s. 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