2025 – Amanhece (São Paulo, Brasil)
Carregando nos braços formas da própria alma, as mulheres avançam em silêncio na madrugada. As formas ganham densidade corpórea ao trazer inscrito o peso da dor. É como se feridas impregnassem as almas, que exigem ser curadas em corpos que se insinuam em órgãos delineados sob o tecido. Trata-se dessa parte substancial sem a qual jamais seríamos um todo.
Caminhando juntas, as mulheres encontram, ao chegarem no espaço performático, vinte e cinco cadeiras antigas dispostas em círculo, como num altar. As mulheres se sentam aguardando no limiar da madrugada.
O tempo então se suspende. Com linhas, agulhas e outros objetos elas vão, lentamente, curando a eterna companheira que se encontra adoecida. Cuidam das feridas invisíveis que marcaram os corpos das almas, suturando, colando, anotando em silêncio, cada qual a se debruçar cuidadosamente sobre sua essência.
O gesto é solitário e, a um só tempo, comunitário. A madrugada avança enquanto os corpos das almas — que guardam como molde inscrições da vida, suas dores e violências — vão sendo tratados.
Quando terminam, as formas das almas restam nas cadeiras como reminiscências inapagáveis do que há de substancial na força feminina, e as mulheres então partem enquanto amanhece.
Caio Russo.


